– ou de “analfabetização política”
@viniciocarrilhomartinez
Ester Dias da Silva Batista
– Bióloga e mestranda no PPGCTS/UFSCar
Veremos que não existe esquerda da boca pra fora.
Cabem umas poucas explicações: a parte central do texto já foi empregada em outro momento, com outros objetivos, mas sempre é bem vinda na explicação de um fenômeno – infelizmente, sempre atual.
Também é preciso dizer que a expressão “analfabetização” não existe formalmente (é até contrária à lógica), mas aqui é empregada como figura de linguagem; não é conceito sociológico e nem condição pedagógica.
Porém, a “analfabetização” insiste em ser (reaparecer) como fenômeno social e político: à direta se chama negacionismo (de tudo o que for racional e razoável), já, à esquerda, corresponde (essa é só uma faceta) à aceitação de apenas uma parcela do Processo Civilizatório – leia-se cultura, educação, civilidade, conhecimento, Pensamento científico –, enquanto faz escárnio de outras parcelas obrigatórias (pela epistemologia básica) da visão de mundo que seria corresponde à esquerda.
Em contextos semelhantes, tais perfis põem em prática o machismo doméstico – que beira à misoginia –, apregoam o antissemitismo (a guerra com o Irã é apenas uma desculpa), tanto quanto têm a xenofobia e a homofobia pela frente.
Para esses indivíduos a visão de mundo não se fechou por completo, não se alinhou no horizonte dos fatos, não há concordância conceitual. Há um estrabismo, para quem de “esquerda” se autointitular e, ao mesmo tempo, defender que os animais vivam nas ruas – remedando quem os acolha com os próprios recursos – ou, simplesmente, apregoando que sejam todos eliminados e mortos.
Em casos extremados, isso que chamamos de “Esquerda torpe”, é capaz de “criticar a condição do sistema prisional” e, concomitantemente, defender a lisura de uma “festa popular” chamada de A farra do boi – ou simplesmente não ver maldade nas rinhas de galo.
Nesse caso grave, sem aparente remédio político-jurídico (a não ser estudar), o córtex frontal não se ajusta à sensibilidade, a sinapse não encontra teoria e prática: discurso via de regra sem se expor para além das redes antissociais e tóxicas (iguais a esses perfis).
E nisso há falha grave na formação de uma visão de mundo de esquerda, se esperamos pela coerência entre as latitudes e as longitudes políticas, sociais, humanizadas. Não se é de esquerda pela metade e, exatamente por isso, é muito mais difícil entender-se assim do que sentar no sofá como um “sujeito comum de direita”.
Muitas vezes, ambos são “cidadãos de bens” – a exemplo de quando esse “ser de esquerda” mantém em sua residência o famoso “quartinho da empregada”, como reprodução do engenho e da Casa Grande urbana. Alguns desses até podem ser defensores dos direitos humanos, mas não notam os maus tratos aos animais.
Uma esquerda incapaz de ver o Bom Senso
Ainda nessa perspectiva, Gaston Bachelard (1996) discute os chamados obstáculos epistemológicos, caracterizados pela predominância da opinião e do senso comum, que dificultam a construção crítica e da produção racional do conhecimento. Nesse sentido, o autor afirma que “A ciência, tanto por sua necessidade de coroamento como por princípio, opõe-se absolutamente à opinião” (Bachelard, 1996, p. 18), indicando que a opinião, enquanto forma imediata de apreensão do real, não se constitui como fundamento válido para o conhecimento científico.
Logo, o senso comum, quando não submetido à crítica e à reflexão efetivas, tende a se reproduzir de maneira acrítica, reforçando-se interpretações já estabelecidas e pouco problematizadas da realidade social, como no caso da dualidade entre a crítica das condições do sistema penal, mas o divertimento e a lucratividade com rinhas de galo, por exemplo; algo que se vê em alguma parcela da esquerda atual, justamente por essa “indução do senso comum” à reprodução desassistida de análise crítica ou cognitivamente fundamentada.
Nesse sentido, o autor também afirma que: “Mesmo na mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem vestígios do homem velho.” (Bachelard, 1996, p. 10). Ou seja, mesmo no processo de construção do conhecimento científico persistem elementos do pensamento não elaborado, ligados ao senso comum, quase que intrinsecamente apegados ao sujeito, caracterizando-se a dificuldade de se expurgar tais pensamentos. Em diálogo com essa perspectiva, pode-se relacionar tal movimento à ideia freireana de “novo homem”, compreendido como sujeito crítico em processo de formação (Freire, 2022) , ao indicar que a superação do senso comum não é imediata nem linear.
A permanência de formas de pensamento pouco problematizadas (e incoerentes), por sua vez, acaba por contribuir para análises simplificadas da realidade social, como a presença de animais em situação de rua, frequentemente tratadas de maneira descontextualizada e até normalizada. Isso evidencia a tensão entre uma leitura crítica e histórica da realidade e interpretações baseadas em percepções imediatas do cotidiano – normalmente danosas e tóxicas ao ambiente e ao convívio que se espera para uma visão de mundo de esquerda.
Há muito dessa tipologia, um tipo de espécime político, incapaz, inclusive, de visualizar o “melhor do senso comum”, que podemos chamar de Bom Senso do senso comum: aquela pessoa mais simples que sabe o valor de se aplicar ao Bem e, assim, pela lógica meridiana, apartar-se do Mal.
Para efeito político e didático, veremos a seguir uma resenha retirada da leitura de A quinta coluna, pois nos parece haver a incidência clara da “analfabetização política de esquerda” e a consequente provocação de ações políticas torpes.
A quinta coluna
Madri sofreu um sítio realizado por quatro colunas de fascistas revoltosos por três anos e, além disso, de dento da cidade, outro grupo indicava os alvos que deveriam ser bombardeados: a Quinta Coluna de infratores, infiltrados, traidores e mercenários.
Os personagens centrais representam o povo espanhol – mesmo que ali apareçam como ingleses, americanos e alemães – e todos aqueles que se identificam com a democracia e a liberdade. O retrato é o do horror. Pouco restava de idealismo, nacionalismo, heroísmo. Havia apenas o vazio que corroía a humanidade. Na luta intestina pela sobrevivência, o Bem e o Mal se confundiam. Eram protagonistas desiludidos. Apegava-se à dor e à privação. Na narrativa, as falas aparecem com beligerância, de combatentes desiludidos. Para o autor, a moral da história ilustra a ausência total de “vida particular”. Se é que havia vida.
O primeiro ato já traz um diálogo inicial “educado”, mas áspero na intenção oculta, entre Dorothy e Preston, até aquele momento eram amantes – em que ela traduz o amor de ambos: “É apenas um mau hábito que adquiri” (Hemingway, 2007, p. 17). Em seguida, surge o gerente do hotel em que estão hospedados pedindo comida para sua família…A esta altura os bombardeios já haviam avançado sobre Madri – quando apareceu outro “camarada” de partido. Este camarada se faz acompanhar de uma prostituta Moura e que logo invoca com Dorothy: “Arranco os olhos, se você acha melhor do que eu” (Hemingway, 2007, p. 26). Pouco antes, a Moura estivera indignada com um cartaz que estava fixado à porta, onde se lia: “Trabalhando, não perturbe”.
Em meio a outro diálogo bastante ácido recomeçam os bombardeios. Temos uma reação de Preston e aí segue uma descrição como um aviso de morte: “Há um som como o acorde de um banjo gigantesco e um ruído que se aproxima como um trem vindo na direção da gente” (Hemingway, 2007, p. 33). Philip, o camarada que encanta Dorothy, justifica porque não vai a um abrigo: “Seguro não é bem o termo, mas quem é que se preocupa com segurança” (Hemingway, 2007, p. 36). Philip, totalmente bêbado, bate em Preston e fica com seu quarto e sua mulher. No dia seguinte não se lembra de nada, mas o gerente avisa que dois soldados o esperam. Philip, então, irrita-se porque os dois deixaram alguém fugir: “Há uma única regra quanto ao dever. A gente tem de cumpri-lo. E há somente uma coisa a respeito de ordens. ELAS TÊM DE SER OBEDECIDAS” (Hemingway, 2007, p. 51). Manda prender os dois soldados e reage com sarcasmo: “boa sorte”. É a disciplina da Razão de Estado, para a segurança, em que impera a obediência e a morte.
Em outra cena, Dorothy pede o café da manhã e responde à atendente do hotel, sobre o bombardeio da noite anterior: “Que nada! Foi até encantador” (Hemingway, 2007, p. 56). No diálogo seguinte, entre Philip e Dorothy, sobre Preston, outra vez surge o realismo sarcástico: “DOROTHY – Oh não Philip! Não se preocupe. Ele se foi para sempre. PHILIP – Frase horrível: para sempre” (Hemingway, 2007, p. 60). Depois a moça diz ao policial Philip para que procurasse ser mais sério e honesto – ao que este responde com mais cinismo e desdém: “Não me tente. Não me torne ambicioso […] Não me abra novos horizontes” (Hemingway, 2007, p. 63).
Este sentimento evasivo se acentua quando Dorothy lhe diz que mostraria aos filhos dos dois um mundo maravilhoso, após a guerra. Ele diz que o filho nunca teria visto o pai. A moça insiste e diz que ele escreveria um livro sobre guerras – mas, a resposta é um tiro fatal: “Seria um belo livro. Poderia enriquecê-lo…com ilustrações” (Hemingway, 2007, p. 65). Philip sai do quarto e Dorothy chama Petra e assegura que a criada não deveria ser tão derrotista. A camareira diz brevemente: “Não penso em política. Apenas trabalho” (Hemingway, 2007, p. 70). Era a consciência de classe possível, àquela altura dos acontecimentos.
Quando Preston reaparece há um diálogo seco e este chama o gerente para retirar Philip do seu quarto. Todavia, o gerente implora para que não chame a polícia: “Em assuntos privados, a autoridade pública dá sempre interpretação errada” (Hemingway, 2007, p. 77). Na sequência, um tipo de ajudante de ordens espera Philip que está no quarto de Dorothy e, sentado, recebe um tiro na nuca: a Quinta Coluna.
No segundo ato, Philip interroga o soldado que deixara um o suspeito fugir e, então, diz a seu próprio coronel que “não há ninguém absolutamente certo”. Philip convence o coronel a não executá-lo e o soldado agradece, mas houve que a guerra não tem favores: “Numa guerra, não se diz obrigado” (Hemingway, 2007, p. 94). O soldado é levado e os dois oficiais militares (Philip é meio policial, meio militar) conversam como é que se morre bem em uma guerra daquelas. Philip lembra ao coronel, seu próprio superior, os equívocos cometidos: “Mas, às vezes, matamos por engano, não é Antônio?” (Hemingway, 2007, p. 97). Philip também lhe revela algumas fraquezas da profissão de contraespionagem: “Gostaria de saber quem sou eu ao acordar” (Hemingway, 2007, p. 100).
De novo no bar, Philip conversa com a Moura sobre as virtudes de Dorothy e a prostituta se mostra sagaz: “Que é que você faz durante todo o tempo, nesta guerra, se ainda não sabe o que é ignorância e o que é coragem?” (Hemingway, 2007, p. 115). A guerra parece ser isso, quem engana melhor. Na continuação Dorothy chama a camareira e fica sabendo que o eletricista do hotel fora baleado durante a noite e morrera. A ajudante Petra informa-lhe que os assassinos são franco-atiradores da Quinta Coluna, que atiram a esmo. Contudo, preferem alvejar os inimigos de classe: “Se fosse eu morta, eles ficariam felizes. Pensariam que era uma pessoa a menos da classe trabalhadora” (119). O que já indica um amadurecimento da consciência de classe, se comparada à anterior análise social da própria camareira. A guerra civil revelava a crueza da luta de classes. Petra também diz que Philip é um genuíno filho da guerra: “Não digo que ele não seja um bom homem. Mas é ruim” (Hemingway, 2007, p. 123). Na guerra civil, fratricida, quando se opõem membros da mesma família, não é difícil esquecer o foco e mesmo a identidade.
Dorothy compra um casaco de pele de raposas e Philip não gosta, porque teria usado o mercado negro. Quase brigam ao falar do “moralismo” da guerra. Philip também conversa com outro camarada, Max, e se queixa amargurado do trabalho que fazem juntos. Lamenta o fato de que o soldado tenha morrido no seu quarto, em seu lugar. Max tenta confortá-lo e tem como resposta o non sense da ironia mordaz. Max responde, lembrando o significado da guerra civil espanhola: “Em suma: para que possam viver e trabalhar com dignidade, e não como escravos” (Hemingway, 2007, p. 177). Na guerra civil, irmãos escravizam irmãos.
Sequencialmente, em um posto de observação, um soldado diz a senha para outros três que se aproximam: “a vitória”. E houve a contra senha: “…é para aqueles que a merecem” (Hemingway, 2007, p. 183). Era uma senha fascista que abriria espaço para a entrada de um oficial alemão: os mercenários socorrem aos interesses de classe, em defesa do capital. À meia-noite se deflagra o bombardeio contra Madri – para confirmar, o ajudante de ordens revela que os alemães estão ali a serviço do capital internacional: “Esses marxistas filhos-da-puta! Isso vai apanhá-los em suas trincheiras” (187). Neste momento, as sentinelas são abatidas e Philip dá a ordem de rendição ao general.
De volta a Madri, no interrogatório, fica evidente que o general não os acompanhara como refém, não era o alvo principal; apenas o civil: foi fuzilado no caminho. Antes de iniciar a sessão de tortura, Philip descreve o caráter do alemão prisioneiro: “O homem é como uma fruta madura” (Hemingway, 2007, p. 196). Seria definido como um “político”. Aí se segue um breve diálogo entre invasor e torturador: “CIVIL – Jamais falarei. ANTÔNIO – Falará sim. Você vai ver…” (Hemingway, 2007, p. 198). Como resultado disso, foram presos mais de 300 inimigos-traidores da Quinta Coluna – estampados em todos os jornais, como peça publicitária.
A divulgação do feito foi tanta que o anonimato de Philip se perdera. Para se esconder seria preciso romper com Dorothy. Entretanto, Max lhe adverte: “Para nós, que já passamos por coisas terríveis, a gentileza em tudo o que for possível é de suma importância” (Hemingway, 2007, p. 211). “Há que endurecer; porém, perder a ternura jamais”. Quando Philip termina o relacionamento, ambos se ofendem, chamando-se de mercadorias e de (in)utilidades. Mantiveram uma relação utilitária, em meio a uma guerra sem utilidade social e nem integridade da condição humana.
Por óbvio que nada supera a leitura, essa abaixo:
● HEMINGWAY, Ernest. A Quinta Coluna. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.
E como resultado final, como desfecho da torpeza da Quinta coluna – e da luta fratricida entre “esquerdas” na Guerra Civil espanhola –, recomendamos tanto o livro quanto o vídeo homônimo, a seguir:
● DEL TORO, Guillermo; FUNKE, Cornelia. O Labirinto do Fauno. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019.
Portanto, vimos que não existe esquerda da boca pra fora.




