segunda-feira, março 9, 2026
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Quando dizer não pode custar a vida: quatro mulheres por dia

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Tainá Reis – Doutora em Sociologia

Vinício Carrilho Martinez – Doutor em Ciências Sociais

Todos os dias no Brasil quatro mulheres são mortas simplesmente por serem mulheres – inclusive hoje, no Dia Internacional da Mulher. O país registrou em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, 1.568 feminicídios – o maior número desde que o crime passou a ser tipificado no Código Penal, em 2015.

Diariamente nos noticiários aparecem casos de misoginia, assédio sexual, violência doméstica e feminicídio. Matérias sobre feminicídio se tornam banais, apresentadas entre a parte meteorológica e a de esportes do jornal. Mas para quem vive neste país como mulher, os crimes hediondos não são apenas estatísticas: são um lembrete constante de que a violência está perto, porque o motivo da violência é ser quem se é, uma mulher. Não se trata de um acidente raro, um acaso que tem acontecido repetidamente, pois, é parte de uma estrutura que continua operando.

Essa estrutura também aparece nos gestos cotidianos, nas piadas, nos vídeos que circulam nas redes sociais. Vamos falar sobre uma trend recente: homens simulam nos vídeos um pedido de namoro ou casamento, ajoelham-se com um olhar aparentemente apaixonado; em seguida, encenam a reação caso recebessem um “não” ao pedido, teatralizam agressões (socos, chutes, facadas ou pauladas imaginárias são representadas como resposta à recusa feminina). Esses vídeos circulam nas redes sociais como algo normal, como brincadeira e contam com milhões de visualizações[1]. Aqui há declaração óbvia de incitação ao crime e que, como é o fato em si, também é crime.

As imagens são difíceis de assistir sem produzir um misto de asco, nojo, indignação e cansaço. Isso que alguns chamam de brincadeira revela a persistência da ideia de que a vontade masculina deve se sobrepor à autonomia das mulheres. A recusa feminina é transformada em motivo de violência. Esse tipo de conteúdo está apoiado em uma cultura muito mais antiga, que tem ensinado há séculos que homens e mulheres estão em lugares sociais diferentes e tem direitos diferentes.

Desde cedo, meninos e meninas são socializados em uma lógica que naturaliza a autoridade masculina e associa as mulheres a posições de subordinação. Esse arranjo social tem sido denominado de patriarcado — um sistema no qual os homens concentram poder político, moral e simbólico, enquanto as mulheres são associadas a papéis considerados secundários ou inferiores. Esse sistema não se sustenta apenas por normas ou expectativas sociais, mantém-se também pela violência, como afirmado por autoras como Silvia Federici (2017) e Heleieth Saffioti (1995).

Então, podemos entender que a violência de gênero não é resultado de comportamentos individuais desviantes, mas de relações sociais de dominação e poder. O agressor é um indivíduo, mas a lógica que legitima a violência é coletiva, é aprendida, reproduzida e naturalizada. A lógica da misoginia é exatamente a mesma, não se trata de um sentimento individual de ódio às mulheres, mas de um sistema social que disciplina e pune aquelas que desafiam papéis tradicionais de gênero (aqueles que foram sendo ensinados aos meninos e meninas desde a infância). É uma das faces do dominus (um domínio total, como se dá na propriedade de algo).

A filósofa feminista Kate Manne (2017) afirma que mulheres que reivindicam participação política, independência financeira ou simplesmente autonomia se tornam alvo desse mecanismo de punição simbólica ou física. Isso pode ser confirmado nas investidas dos chamados red pills[2] contra figuras femininas de destaque; no tipo de perseguição sofrida por mulheres na política[3] (lembremos dos ataques misóginos dirigidos à ex-presidenta Dilma Rousseff durante o período do golpe); nos vídeos que satirizam agressões diante do “não” feminino; e, inclusive, nos altos números de feminicídio e de violência doméstica.

Ainda cabe ressaltar que a violência não atinge todas as mulheres de forma homogênea, é preciso atentar para a intersecção entre gênero, raça e classe. Mulheres negras, pobres ou pertencentes a minorias sexuais enfrentam níveis ainda mais intensos de violência e discriminação, conforme Angela Davis (2016) e Patrícia Hill Collins (2019). Essa realidade foi analisada de forma pioneira no Brasil pela intelectual e ativista Lélia González (2020).  Para a autora, a violência contra as mulheres negras deve ser compreendida conjuntamente com a história escravocrata do país.

Durante séculos, os corpos das mulheres negras foram concebidos como propriedade, submetidos à exploração econômica e sexual. Essa racionalidade escravista permanece na cultura brasileira, contribuindo para a naturalização de estereótipos e para a invisibilização do sofrimento dessas mulheres. É também uma explicação para o fato de mais da metade das vítimas de feminicídio serem mulheres negras (Brasil, 2026).

A partir dessa breve retomada sobre algumas reflexões de diferentes autoras feministas e dessa trajetória histórica do país, entende-se que o feminicídio não é apenas um problema contemporâneo. A violência contra as mulheres acompanha a própria formação social brasileira: esteve presente no período escravista, quando mulheres negras eram tratadas como objetos de trabalho e consumo sexual; passa pela lógica patriarcal do pater familias, em que a autoridade masculina (do pai ou do marido) estruturava a vida familiar e controlava a mulher branca; esteve na ação do próprio Estado, como nas torturas abomináveis especificamente cometidas contra mulheres durante a ditadura militar.

É preciso reconhecer que nos últimos anos, o Brasil avançou, no campo jurídico, no combate a essa estrutura, com a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio. Essas conquistas são passos fundamentais no reconhecimento institucional da violência de gênero. Mas os números mostram que as leis não são suficientes – aliás, 13% das mulheres assassinadas em 2025 por feminicídio tinha medidas restritivas urgentes contra os agressores. Ou seja, é preciso mais do que leis para desmontar uma estrutura que se reproduz na cultura, nas relações sociais e nas instituições.

Se entendemos o feminicídio como cristalização de uma estrutura social patriarcal e misógina, a resposta a ele também deve ser estrutural. Mais do que medidas pontuais, o enfrentamento da violência contra as mulheres exige um compromisso político duradouro, com políticas públicas permanentes e coordenação institucional – exige, enfim, uma verdadeira Política de Estado. O fato de quatro mulheres serem assassinadas todos os dias neste país apenas por serem mulheres não é um problema de segurança pública, mas um retrato de relações de poder e hierarquias patriarcais que ainda estruturam a sociedade brasileira.

Referências

Brasil. Senado Federal. Procuradoria Especial da Mulher. Feminicídios crescem 4,7% em 2025; pequenas cidades têm maiores taxas. Brasília, 5 mar. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/institucional/procuradoria/noticias/feminicidios-crescem-4-7-em-2025-pequenas-cidades-tem-maiores-taxas. Acesso em: 8 mar. 2026.

Collins, Patricia Hill. Pensamento feminista negro: conhecimento, consciência e a política do empoderamento. Tradução: Jamille Pinheiro Dias. São Paulo: Boitempo, 2019.

Davis, Angela. Mulheres, raça e classe. São Paulo: Boitempo, 2016.

Federici, Silvia. Calibã e a bruxa. São Paulo: Elefante, 2017.

Gonzalez, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano: ensaios, intervenções e diálogos. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.

Manne, Kate. Down Girl: The Logic of Misogyny. New York: Oxford University Press, 2017.

Saffiotti, Heleith. Violência de gênero. Poder e impotência. Rio de Janeiro: Revinter, 1995.

[1] Vale dizer que quando alguns vídeos foram denunciados, a Meta afirmou que eles não feriam os protocolos da empresa e por isso não seriam removidos da plataforma. Isso leva mais uma vez à discussão da necessidade de regulamentação da internet.

[2] Red pill é um termo que surge a partir do filme Matrix, uma referência a tomar a “pílula vermelha” como um despertar para uma verdade oculta. Na internet o termo tem sido usado por comunidades masculinas de caráter patriarcais, antifeministas e misóginos, que afirma ter “despertado” para a verdade sobre mulheres.

[3] Sobre violência política de gênero, consultar o documentário ELEITAS l Violência Política de Gênero, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ByyeSfF2SgA

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