Ester Dias da Silva Batista – licenciada em Biologia/UFSCar
Izabela Victória Pereira – estudante de Filosofia/UFSCar
O objetivo geral do texto é delinear alguns fundamentos que não podem ser questionados e abandonados por quem pensa a Educação de forma emancipadora. Para uma compreensão geral, dividimos em duas partes que se comunicam e que refletem o mesmo sentido civilizatório proposto.
Fundamentos da educação para a ciência
Pensar uma Educação que se constitua de forma emancipadora implica romper com concepções dogmáticas de ensino, historicamente consolidadas nas salas de aula e naturalizadas como mecanismos de regulação social e de perpetuação das desigualdades.
Na perspectiva da educação para a ciência, essa ruptura demanda reconhecer o conhecimento científico para além de uma concepção tecnicista, compreendendo-o como uma produção humana e historicamente situada, indissociável dos contextos políticos, sociais e econômicos nos quais é produzido, legitimado e socialmente apropriado. Não há neutralidade na produção e aplicação da ciência.
A ciência, nesse sentido, não se apresenta como uma produção descolada da experiência humana, mas como uma construção social permeada, atravessada por valores, interesses, disputas e projetos de sociedade. Reconhecer essa não-neutralidade constitui um fundamento inegociável da educação científica orientada à compreensão crítica da realidade e à formação integral do sujeito, enquanto estudante e cidadão. Reduzir o ensino de ciências à mera transmissão de conteúdos, à lógica da educação bancária (FREIRE, 2019)[1] ou ao treinamento técnico significa esvaziar seu potencial formativo e transformador, convertendo o conhecimento em instrumento de adaptação, e não de emancipação.
É essencial, portanto, que a educação científica promova a leitura crítica do mundo, articulando conceitos científicos às experiências concretas dos sujeitos e às problemáticas sociais passadas e contemporâneas. Nesse processo, os estudantes devem ser reconhecidos como sujeitos ativos na construção do conhecimento, capazes de questionar, interpretar e atribuir sentido aos saberes científicos.
Uma educação para a ciência comprometida com a emancipação afirma o compromisso ético da ciência com a vida, a justiça social e o bem comum, posicionando-se criticamente diante de usos do conhecimento que aprofundam desigualdades e exclusões sociais.
Assim, a educação científica consolida-se como fundamento essencial de um projeto civilizatório orientado pela autonomia intelectual, pela responsabilidade coletiva e pela transformação social.
Por que ensinar a Filosofia?
A Filosofia consiste na base de todas as ciências, de modo que todas as ciências bebem de sua lógica a partir da vinculação de todos os conhecimentos científicos terem nascido dos pensamentos filosóficos, o que proporciona reflexão sobre a existência e o pertencimento.
A Filosofia contribui para a formação crítica do sujeito ao promover, desde a educação básica, a problematização de normas, valores e práticas sociais. Para além da transmissão de conteúdos específicos, seu ensino desenvolve competências argumentativas e lógico-dedutivas, favorecendo a análise crítica da realidade e das dinâmicas de poder e opressão. Desse modo, justifica-se sua obrigatoriedade no ensino médio em razão de sua relevância formativa, reflexiva e político-social.
Diante do cenário atual na educação pública do Estado de São Paulo, há um projeto político do neoliberalismo que anula a autonomia e a emancipação na escola pública. Após a reforma do Ensino Médio aprovada em 2017, que fragiliza a educação brasileira desde sua base, a disciplina de Filosofia deixou de ser obrigatória no ensino médio e passou a integrar apenas como um item dos itinerários formativos em escolas públicas. Em contrapartida, se contradiz ao ensino privado que não adere à reforma e mantém o modelo antigo, com foco pré-vestibular. O que acaba favorecendo a desigualdade no acesso à educação no Brasil.
Assim, a reforma diminui a carga horária comum, com ênfase em ciências humanas (filosofia, história, artes e sociologia), e aumenta a carga horária de itinerários formativos, que são matérias interdisciplinares (educação financeira). Entretanto, ocorre uma omissão entre a finalidade e os efeitos reais do projeto, substituindo-se a filosofia pela educação financeira, isso equivale a ensinar o aluno a lidar com o pouco que ganha, e jamais questionar o porquê de ganhar pouco. A exclusão da disciplina de filosofia faz com que os estudantes deixem de ter acesso a uma formação crítica, como indivíduos de uma sociedade cindida, conturbada, desigual, como é a brasileira. Neste sentido, o ensino de filosofia agiria de per si como resistência e construção da práxis (reflexão e ação).
[1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 91. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2019.




