Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia/UFSCar
A universidade pública, em sua estruturação, apresenta-se de forma fortemente relevante para o crescimento dos sujeitos que ali adentram. Por tal razão, ser um estudante no Brasil não se refere somente ao acesso ao ensino superior, mas algo que atravessa outras vertentes da vida, como a própria permanência desse indivíduo no espaço universitário, marcado principalmente pelas desigualdades.
O ingresso, para estudantes que são provenientes de escolas públicas principalmente, representa uma conquista de grande relevância, porém, também associado a essa conquista, um momento de ruptura. Apesar de o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) ser estruturado como principal forma de ingresso em universidades de todo o país, na maioria das vezes, esse mesmo sistema não atua efetivamente como uma ponte entre o ensino básico e superior, uma vez que propõe requisitos, habilidades e conteúdos que nem sempre são plenamente trabalhados na trajetória escolar desses estudantes de escola pública, gerando dificuldades de acesso e permanência.
Tal processo acaba sendo evidenciado logo no ingresso da graduação, um momento de transição muito latente, em que muitos estudantes chegam à universidade e precisam lidar com mudanças muito grandes, inicialmente pela chegada em uma nova cidade: o afastamento da família, além do contato com novas práticas acadêmicas e a ausência de redes de apoio tornam a adaptação um processo complexo.
As desigualdades educacionais ainda perpassam a forma como a distribuição do chamado capital cultural é feita, ou seja, nem sempre os estudantes de algumas escolas públicas têm acesso a determinadas leituras, obras e autores amplamente cobrados na universidade, o que faz com que estudantes ingressantes se encontrem em condições desiguais, ainda que tenham superado os mesmos processos seletivos (BOURDIEU, 1998)[1].
Dessa forma, internamente, as políticas de permanência e manutenção estudantil atuam de forma muito relevante e até fundamental para possibilitar que estes estudantes consigam se manter nessa etapa da vida, dando continuidade nos estudos de forma mais viável. Entretanto, algo válido de salientar é que, apesar da importância de tais políticas e de todos os avanços conquistados, tais políticas nem sempre conseguem atender efetivamente às diferentes dimensões que acabam passando pela permanência estudantil.
Portanto, permanecer na universidade não é meramente ingressar e dar conta de todas as disciplinas da grade, mas passa pela necessidade de reconhecer as desigualdades estruturais que acompanham os estudantes desde a educação básica até este ingresso.
[1] BOURDIEU, Pierre. Os três estados do capital cultural. In: NOGUEIRA, Maria Alice; CATANI, Afrânio Mendes (org.). Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 71–79.




