sexta-feira, agosto 29, 2025
spot_img

Carta de uma acadêmica de pedagogia ao presidente Lula

Caro presidente Lula

Sou Ana Calorina, uma jovem do campo. Cresci indo aos eventos do Partido dos Trabalhadores, ouvindo discursos sobre justiça social, educação pública e futuro para a juventude. Vivi nos bastidores dos movimentos sociais, aplaudindo lideranças que falavam bonito e me fizeram acreditar que o Brasil estava mudando. Mas amadurecer, para mim, foi perceber que há uma distância enorme entre a fala e a prática. E é desse abismo que nasce essa carta.

Estudo Pedagogia na Universidade Federal de Rondônia. Não escolhi esse curso só por vocação, escolhi também por revolta. Porque sei, na pele, o que é estudar em uma escola pública tratada como custo. Porque vi a escola do meu território rural ser deixada para morrer. Porque fui criada dentro de uma estrutura física razoável, mas que não tinha importância política alguma. Que existia para constar, mas não para transformar.

A educação fundamental e média nas nossas regiões é gerida, muitas vezes, por pessoas que não compreendem e nem se esforçam para compreender os anseios da juventude. Tratam nossas escolas como despesas. Fecham unidades para “economizar recursos”, como se infância fosse gasto, como se o campo não tivesse direito à escola.

E enquanto isso acontece, o que se vê nos palanques, nas redes sociais e nas reuniões partidárias? Juventude sendo usada como bandeira. Como imagem. Como decoração estética para campanhas eleitorais. Lideranças que se dizem de esquerda se preocupam mais em manter cargos e prestígio do que em abrir espaços reais para a juventude. Nos querem apenas como símbolo não como sujeitos de decisão.

Essa juventude do campo e da cidade está sendo traída.

E a dor se aprofunda quando a gente chega à universidade e percebe que o abandono continua. Consegui entrar na UNIR, mas carrego comigo o peso de centenas de jovens que ficaram pelo caminho não por falta de inteligência, mas igualmente a mim, por questões econômicas, geográficas e políticas.

Aqui em Rondônia, no Campus de Ji-Paraná, sequer temos um Restaurante Universitário funcionando. Em pleno 2025.
A universidade pública precisa garantir mais do que acesso: precisa garantir permanência.

Estudo à noite, presidente. Volto tarde. E, muitas vezes, chego sem saber se vou conseguir comer algo no intervalo. E não sou exceção, sou retrato da regra. A maioria dos estudantes da UNIR enfrenta dificuldades semelhantes ou piores. E mesmo assim, o Estado finge que está tudo bem.

A ausência de RU é uma afronta. Muitos colegas chegam sem ter o que comer, dependendo de bicos ou da solidariedade alheia. Outros, assim como eu, moram em áreas rurais e precisam pagar transporte caríssimo para chegar ao campus. Há quem abandone a graduação por pura exaustão.

É um absurdo que se fale em “democratização do ensino superior” quando nem se oferece um prato de comida digno para quem está dentro da universidade. Quando não há alojamento, nem incentivo real à permanência.

E, mesmo assim, a imagem da juventude continua sendo usada. Somos a foto no folder da campanha. O vídeo no Instagram. O corpo no ato. Mas e nossa voz? Nossas necessidades reais? Nossos sonhos concretos?

Presidente, esta carta é um grito. Não um pedido gentil. Um grito daqueles que estudam com medo, com fome, com revolta e com esperança. Daqueles que não querem mais ser figurantes na política que diz nos representar.

E é por isso que, enquanto jovem do Norte, deixo aqui o meu apelo e exijo nosso direito:

A implantação imediata de Restaurantes Universitários em todos os Campus da UNIR, não só os escolhidos a dedo, com estrutura e funcionamento real;

Transporte público universitário subsidiado, com rotas que atendam as regiões distantes dos Campus especialmente para quem estuda à noite;

Alojamentos estudantis funcionais, com vagas para alunos que não têm condições de viver nas cidades onde estão as universidades;

Que o governo federal enfrente com seriedade, o fechamento de escolas no campo, entendendo a escola como um centro de vida comunitária e não como custo;

Que os movimentos sociais e partidos que se dizem da classe trabalhadora parem de nos usar e comecem a nos ouvir, de verdade.

Estudar, aqui, é resistir.
E resistir, para mim, virou destino. Mas não devia ser.

Presidente, o Norte existe. A juventude existe. E não vamos mais nos calar.

Ana Calorina Oliveira de Andrade.
Acadêmica de pedagogia
UNIR/RO.

Compartilhe

Related Articles

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

- Advertisement -spot_img

Colunas

PCC e Faria Lima: operação bilionária também vai investigar políticos

A Operação Carbono Oculto, deflagrada nesta quinta-feira (28) em oito estados, não mira apenas o crime organizado e seus tentáculos no setor de combustíveis e...

Rogério Correia aciona PGR contra Nikolas por favorecer lavagem de dinheiro

Rogério Correia (PT-MG) cita repercussão de vídeo sobre PIX por favorecer brechas de controle do governo O deputado federal Rogério Correia (PT-MG) enviou nesta quinta-feira (28)...

Carta de uma acadêmica de pedagogia ao presidente Lula

Caro presidente Lula Sou Ana Calorina, uma jovem do campo. Cresci indo aos eventos do Partido dos Trabalhadores, ouvindo discursos sobre justiça social, educação pública...

Coluna Zona Franca

The Economist: Bolsonaro extremista O ex-presidente Jair Bolsonaro voltou ao centro das atenções internacionais ao estampar a capa da revista britânica The Economist desta semana....

Curitiba, a cidade branca que tem alergia a preto com mandato

(Por João Guató - Pasquim Cuiabano) O The Guardian, jornalão britânico que não se vende por um café com pão de queijo no gabinete do...