quarta-feira, abril 15, 2026
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O Uber que faz trading

@viniciocarrilhomartinez

Há histórias que ouvimos, de contadores e contadoras de histórias, que duvidamos da sua inteireza, como se mais da metade fosse só de “estórias”, invenções e retoques para ficarem meio parecidas com lendas. Daí também fazer sentido a expressão “lenda urbana”. E há histórias mal contadas, distorcidas, que afundam os fatos no esquecimento e surgem como narrativas. Adoro lenda urbana e detesto as tais narrativas.

A história de hoje, se você não acreditar no que vou contar – porque realmente pode parecer invenção da minha cabeça –, figuraria como uma lenda urbana que acabei de inventar. Mas não é. Penso que sou criativo e gosto de pessoas criativas, mas não seria assim criativo a ponto de inventar essa lenda urbana.

Na volta de hoje da universidade, das aulas na licenciatura em que falei um bocado de tempo sobre o que chamo de “uberização social”, fiz uma viagem com um jovem – uns 35, 37 anos – que se mudou de Salvador, Bahia, para cá, faz cinco anos.

Está radicado. Veio para trabalhar. Esteve empregado numa empresa local, período em que fez boa parte do curso de engenharia de produção – um curso concorrido e difícil. A empresa pagava metade dos custos de sua educação.

Quando saiu desse trabalho, as mensalidades ficaram muitos caras. Teve que parar momentaneamente. Mas, disse que voltará para concluir seu curso. A história, no entanto, não tem apenas esse componente.

O que gravei na mente, e que monopolizou nossa conversa, é o fato de que ele faz Uber no período da tarde, após às 11, 12 horas. Durante a manhã atua no mercado financeiro, na Bolsa de Valores. Como tenho um pouquinho de ações, a conversa fluiu para algumas implicações mais técnicas. Não sou especialista como ele, mas não ignoro tudo.

Contou-me que ganha aproximadamente o mesmo valor, de manhã na B3, e à tarde no Uber. Me pareceu feliz, apesar de não saber se é pelos seus rendimentos ou porque encontrou alguém que conhece um pouco do trabalho dele.

Ele tem ações, reinveste os rendimentos, projeta suas compras no futuro, quando poderá se aposentar do Uber e de qualquer outro emprego, com alguma reserva financeira. Esse raciocínio é curto no Brasil, só uns 5 milhões de pessoas têm essa perspectiva, enquanto, nos EUA, os/as investidores/as passam de 50% da população – mais de 100 milhões de pessoas, portanto.

É claro que são realidades diferentes, ninguém está aqui comparando Brasil e EUA, na economia, na sociedade como um todo, porém, há um componente cultural: no Brasil, há preferência popular pelos “aluguéis de imóveis” ou pela poupança.

O mais curioso, penso eu, é que ele atua fazendo trading de mini dólar. O que, mais uma vez, é uma componente muito curiosa, porque ele faz dinheiro comprando e vendendo dólar. Teve só uma pergunta que ele pulou, quando indaguei se fazia dividendo sintético. Mas tá tudo bem, já nos deu seu exemplo de aprendizado e de superação.

Isso não é lenda urbana, é somente uma história incrível.

 

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