sexta-feira, abril 17, 2026
spot_img
spot_img

Crônica do Uber

O uber pode não ter a mesma informação, conhecimento e consciência que eu tenho, hoje, sobre o que alguém chamou de “uberização social” – irmã gêmea do neoliberalismo: uma chaga, forma cruel de tirar suas energias e capacidades em todos os setores da vida, até sugar tudo e descapacitar por completo, pela exaustão. É praticamente uma sucção da alma.
Mas é exatamente por isso que converso com todos e todas as motoristas de aplicativo – o mesmo vale para o motoboy que trouxe a cerveja hoje. Esse, em especial, é já um chapa: digo toda vez, como se faz com criança: “tenha juízo, ande devagar na moto”. Tenho uma empatia real.

Como histórias de Uber, vou relatar minha ida e vinda de hoje. Não gosto de dirigir, mas adoro andar de carro.

Crônica do Uber I

Só consegui perguntar na volta, porque na ida o cara não parou de falar.
Inclusive, tem uma filha formada pela UFSCar e empregada na área de educação especial.

O da volta tem 22 anos, faz 50 corridas curtas por dia, tira uns 350, 400 reais diariamente.
Faz uber desde os 19 anos, das 6hs às 18hs.
Disse que não quer estudar.
Está juntando dinheiro, há três anos, pra comprar sua casa própria. No final do ano que vem. Não aplica em poupança.
Diz que o pai ensinou assim.

Crônicas do Uber II

Pra ir, era um sujeito aparentemente simples, vindo do Mato Grosso, há 24 anos, sem um centavo pra voltar – se quisesse uma passagem de volta.

Hoje, trabalha 12 horas por dia, diz que não aguenta ficar parado.
Mas, tem uma Hilux, pra fazer gincho de carros. Tinha acabado de voltar do RS.
Tem uma chácara pra lazer, casa própria também.
Outras casinhas de aluguel.
Tem três carrinhos de lanche em parceria com o cunhado.
E um “comércio” em que o irmão é gerente.

Pensei: eu sou muito desorganizado.

O lado muito negativo dessas viagens é que, infelizmente, as meninas, mulheres, acabam se tolhendo de conversar assim.
Porque estão certas em ter o triplo de cuidado.
Os caras podem entender errado, por causa do machismo, sexismo, misoginia Red Pill etc.

O lado sempre positivo, para um professor como eu, é que o diálogo é uma porta aberta, sem trancas.

@viniciocarrilhomartinez

Compartilhe

Related Articles

- Advertisement -spot_img

Colunas

Proposta de curricularização da extensão com base em uma epistemologia política da ciência

Universidade Federal de São Carlos Departamento de Biologia O antropossocial remete ao biológico, que remete ao físico, que remete ao antropossocial Edgar Morin Proposta de Curricularização da Extensão...

EXTRAÇÃO DA MAIS VALIA E O SISTEMA DE SERVILISMO VOLUNTÁRIO

Ester Dias da Silva Batista Bióloga e Mestranda pelo PPGCTS/UFSCar  Esse texto é uma síntese elaborada nas aulas de licenciatura, como monitora voluntária na disciplina Educação...

Governo Lula lança plano contra crime organizado até o final de abril

Programa prevê cooperação com estados e foco em asfixia financeira de facções O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara o lançamento...

O Uber que faz trading

@viniciocarrilhomartinez Há histórias que ouvimos, de contadores e contadoras de histórias, que duvidamos da sua inteireza, como se mais da metade fosse só de “estórias”,...

Antipedagogia e a reprodução das estruturas sociais

Ester Dias da Silva Batista Monitora da disciplina Educação e Sociedade/UFSCar Beatriz Vitória Vieira de Lima Monitora da disciplina Educação e Sociedade/UFSCar  O texto aqui trabalhado...