quarta-feira, junho 10, 2026
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Crônica do Uber

O uber pode não ter a mesma informação, conhecimento e consciência que eu tenho, hoje, sobre o que alguém chamou de “uberização social” – irmã gêmea do neoliberalismo: uma chaga, forma cruel de tirar suas energias e capacidades em todos os setores da vida, até sugar tudo e descapacitar por completo, pela exaustão. É praticamente uma sucção da alma.
Mas é exatamente por isso que converso com todos e todas as motoristas de aplicativo – o mesmo vale para o motoboy que trouxe a cerveja hoje. Esse, em especial, é já um chapa: digo toda vez, como se faz com criança: “tenha juízo, ande devagar na moto”. Tenho uma empatia real.

Como histórias de Uber, vou relatar minha ida e vinda de hoje. Não gosto de dirigir, mas adoro andar de carro.

Crônica do Uber I

Só consegui perguntar na volta, porque na ida o cara não parou de falar.
Inclusive, tem uma filha formada pela UFSCar e empregada na área de educação especial.

O da volta tem 22 anos, faz 50 corridas curtas por dia, tira uns 350, 400 reais diariamente.
Faz uber desde os 19 anos, das 6hs às 18hs.
Disse que não quer estudar.
Está juntando dinheiro, há três anos, pra comprar sua casa própria. No final do ano que vem. Não aplica em poupança.
Diz que o pai ensinou assim.

Crônicas do Uber II

Pra ir, era um sujeito aparentemente simples, vindo do Mato Grosso, há 24 anos, sem um centavo pra voltar – se quisesse uma passagem de volta.

Hoje, trabalha 12 horas por dia, diz que não aguenta ficar parado.
Mas, tem uma Hilux, pra fazer gincho de carros. Tinha acabado de voltar do RS.
Tem uma chácara pra lazer, casa própria também.
Outras casinhas de aluguel.
Tem três carrinhos de lanche em parceria com o cunhado.
E um “comércio” em que o irmão é gerente.

Pensei: eu sou muito desorganizado.

O lado muito negativo dessas viagens é que, infelizmente, as meninas, mulheres, acabam se tolhendo de conversar assim.
Porque estão certas em ter o triplo de cuidado.
Os caras podem entender errado, por causa do machismo, sexismo, misoginia Red Pill etc.

O lado sempre positivo, para um professor como eu, é que o diálogo é uma porta aberta, sem trancas.

@viniciocarrilhomartinez

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