Ester Dias da Silva Batista – Licenciada em Biologia/UFSCar
Determinados programas que incentivam jovens aprendizes, como o realizado pelo Banco do Brasil[1], apresentam-se como uma iniciativa de grande relevância, principalmente por atuar como uma porta de entrada para o mercado de trabalho. Esses projetos permitem que jovens reconheçam o valor social do trabalho antes da vida adulta efetivamente, exercitando competências como autonomia, gestão do tempo e a convivência com regras. Nesse sentido, tais programas operam como uma forma de antecipação da independência, promovendo amadurecimento de maneira gradual e orientada, conforme previsto na legislação brasileira sobre aprendizagem profissional (BRASIL, 2000)[2].
Ao se colocar esses jovens em um ambiente de trabalho que, dentre vários outros processos, exige reflexão sobre como ocupar seu tempo e, principalmente, como usá-lo de forma consciente, a iniciativa permite que demonstrem seu potencial formativo. O trabalho, nesses aspectos, pode ser essencialmente interpretado como uma atividade mediadora da relação entre o mundo e o indivíduo, contribuindo para a construção de pertencimento e do sentido social (SAVIANI, 2007)[3]. Tal dimensão, por sua vez, é de grande relevância para tentar evitar o excesso do individualismo, que é algo normalmente associado a jovens “mimadas/os” ou ainda “egoístas”, questões essas que refletem justamente a ausência dessa participação social.
Tais percepções tornam-se ainda mais relevantes quando olhamos para o contexto atual da sociedade, que tem sido marcado e manchado pela ampliação do tempo livre de acesso aos ambientes digitais, sem controle ou supervisão, isso incentivado desde a primeira infância. A internet e as redes sociais, embora apresentem um potencial formativo, também expõem os adolescentes a conteúdos muito problemáticos, como desafios e ambientes que, por exemplo, naturalizam a violência. Informações mais recentes demonstram um aumento significativo dos índices de sofrimento emocional e psíquico, seguido de quadros mais desafiadores como automutilação e até mesmo o autoextermínio entre jovens, demonstrando-se como uma crise na saúde mental ao nível global (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021)[4].
Esses aspectos atravessam também outra percepção que tem sido amplamente divulgada nas redes sociais, que afirma que “tempos difíceis criam homens fortes, homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homens fracos, e homens fracos criam tempos difíceis”. Apesar de ser propagandeada amplamente nas redes, essa estrutura, quase como um mantra ou um ditado popular, acaba simplificando determinados processos sociais e históricos que são muito mais complexos. Os sofrimentos psíquicos e emocionais, como a depressão, sempre existiram, mesmo que não fossem nomeados ou diagnosticados como ocorre atualmente. O avanço da ciência, especificamente na área da saúde mental, permitiu o diagnóstico e o tratamento correto, ainda que persista uma deslegitimação social desses sofrimentos.
A reflexão sobre trabalho e educação, portanto, permite compreender também uma proposta denominada politecnia soviética, desenvolvida no início do século XX, cujas bases teóricas encontram-se nas formulações de Lênin sobre a articulação entre ensino geral, trabalho produtivo e formação social do indivíduo (LENIN, 1981)[5]. Tal proposta defende uma formação integral do sujeito, articulando o trabalho intelectual, manual e a formação moral, algo que foi posteriormente sistematizado por educadores como Pistrak (2009)[6]. Nessa perspectiva, os programas de jovem aprendiz citados anteriormente podem ser entendidos como uma possibilidade de experiências que, apesar de inseridas no contexto contemporâneo, resgatam, em certa medida, o princípio do trabalho como elemento formativo.
Portanto, quando organizados eticamente e colocando o emprego em um local de formação e não apenas de sobrevivência, tais programas podem contribuir de forma muito relevante para a formação de sujeitos responsáveis e capazes de lidar com ambientes variados. Assim, pensar em jovens aprendizes é pensar também em políticas integradas de educação, trabalho e responsabilidade social. Oferecer trabalho a esses jovens de forma digna e buscando a formação é também permitir o acesso à proteção social e o desenvolvimento de pertencimento, como uma possibilidade efetivamente viável para construção de seus futuros em uma sociedade marcada por desafios cada vez mais crescentes.
[1] REGISTRO DIÁRIO. Jovem Aprendiz Banco do Brasil: veja quem pode participar, quais os benefícios, como funciona e como se inscrever. Registro Diário, 03 jan. 2026. Disponível em: https://registrodiario.com.br/noticia/6255/jovem-aprendiz-banco-do-brasil-veja-quem-pode-participar-quais-os-beneficios-como-funciona-e-como-se-inscrever. Acesso em: 04 jan. 2026.
[2] BRASIL. Lei nº 10.097, de 19 de dezembro de 2000. Altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho, relativos à aprendizagem. Diário Oficial da União, Brasília, 20 dez. 2000.
[3] SAVIANI, D. Trabalho e educação: fundamentos ontológicos e históricos. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 12, n. 34, p. 152–180, 2007.
[4] WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Adolescent mental health. Geneva, 2021.
[5] LENIN, V. I. La instrucción pública. Moscou: Editorial Progreso, 1981.
[6] PISTRAK, M. M. Fundamentos da escola do trabalho. São Paulo: Expressão Popular, 2009.




