terça-feira, março 3, 2026
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A fome também é professora

O Brasil tem um presidente que passou fome – eleito pela terceira vez – e que teima em tentar tirar o país do mapa da fome. Poderíamos pensar em José Mujica, no Uruguai, também.

A história se mostrou verdadeira para Carolina de Jesus, em Quarto de despejo, quando ela nos avisava desse fato nos anos 1950:

“O que eu aviso aos pretendentes à política, é que o povo não tolera fome. É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”.

“O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”.

“Quem passa fome aprende a pensar no próximo, e nas crianças” (p. 29).

Mas a história do Brasil seria impiedosa na página seguinte, afinal, pouco mudou no dia 13 de maio:

“Hoje amanheceu chovendo. É um dia simpático para mim. É o dia da Abolição. Dia em que comemoramos a libertação dos escravos”.

“A chuva está forte. Mesmo assim, mandei os meninos para a escola. Estou escrevendo até passar a chuva, para eu ir lá no senhor Manuel vender os ferros. Com o dinheiro vou comprar arroz e linguiça” (p. 30).

O que dói na alma dos conscientes é a conclusão desse 13 de maio:

“A Vera voltou a pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo”.

“Era 9 horas da noite quando comemos”.

E assim no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual – a fome!” (p. 32).

Não é todo dia que temos esperança, alegrias, recompensas de qualquer natureza. Muitas vezes somos apenas despejados do mundo das atenções.

“O mundo das aves deve ser melhor do que dos favelados, que deitam e não dormem porque deitam-se sem comer”.

“Eu estou começando a perder o interesse pela existência. Começo a revoltar. E a minha revolta é justa” (p. 35).

O que salvou Carolina de Jesus foi ela mesma:

Todos têm um ideal. O meu é gostar de ler” (p.26).

Todos os secretários de educação, ministros, deveriam ser obrigados a ler sobre o Brasil. Começando por este:

CAROLINA Maria de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática, 2014.

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