@viniciocarrilhomartinez
Titi é o nome dessa princesa da foto. Foi resgatada das ruas aos três meses de vida. Um mês depois já estava aqui comigo. E hoje tem um ano e meio.
A carteira de vacinação dela está mais atualizada do que a minha. Tem o melhor veterinário da cidade, especialmente porque além de técnico o Arthur é humanizado.
Titi come atum natural e a melhor ração que encontramos. Também tem três caixas de areia. Além de uma graminha especial, também para se alimentar. Quando ela não perde, tem 12 brinquedos. Titi não vai pra rua, ela tem 150 metros quadrados para brincar, com um longo corredor descoberto.
É muito tudo isso?
Para 95% da população é demais.
O Brasil tem milhares de pessoas sem o básico.
E aí está a palavra exata: o básico. Titi tem o básico. As pessoas é que não têm.
Morei cinco anos fora de São Paulo e sabia que não poderia ter nenhum bicho comigo, porque não tinha como cuidar adequadamente. Aprendi isso ainda criança: só terá direito ao que for pertinente e estiver ao alcance da sua responsabilidade individual. Por isso tenho a Titi, porque posso cuidar com zelo.
A minha missão não é negar o básico à gata, mas sim lutar para que todas as pessoas tenham direito a cessar o mesmo básico.
Socializar a miséria nunca foi minha tese, muito menos o meu guia de ações.
Porém, o assunto que quero tratar não envolve mais a Titi. Já foi o mundo dela, abandonada para morrer na rua ainda filhote. Quero falar de animais de rua, e que podem ser de estimação.
Animais na rua
(Tem milhões no volante)
Não ia escrever isso, mas resolvi até publicar. Assim aproveito para atacar duas teses macabras: socializar a miséria; abandono de animais para viverem e morrerem nas ruas.
O meu argumento é sempre o mesmo: é preciso combater a estupidez com fatos. Se é que eles podem entender.
Em todo caso, esse texto é um especial para quem defende que os animais andem soltos pelas ruas.
Hoje, um cachorro foi atropelado na frente da minha casa.
O motorista atropelador e assassino, que, com absoluta convicção, é bozoloide, fugiu.
É o tipo de indivíduo que faria o mesmo se atropelasse você, manifestando o típico desprezo cominado com a mais perfeita omissão de suas responsabilidades.
Aqui em frente virou um caos, o cão uivando, a vizinha da frente gritando em desespero. Eu abri o portão. Havia uma moça – de no máximo 20 anos –, um anjo que parou seu carro.
Encurtando a história: o filho adolescente da vizinha colocou um lençol no cachorro e levaram à clínica mais próxima.
O menino foi descalço.
A mãe foi de Uber, depois de trancar a casa.
Eu paguei as custas iniciais, de hoje: mil reais.
Depois surgiu uma companheira desse cachorro, que também quase foi atropelada. A cachorrinha estava desnorteada porque o amigo sumiu. Só entrei quando conseguir assustar a cachorrinha.
Então, quando for defender essa tese genial de bicho na rua, pense bem, com o neurônio que sobrou, antes de falar publicamente.
Tem muito bozoloide com a camiseta trocada.
Só não sabe.
Quem defende que animais vivam (e morram) na rua, para mim, é idêntico a quem acha normal crianças viverem embaixo de pontilhão.
O apelido que lhes entrego, esse que a minha educação autoriza a publicar, é Analfabetizados. Essa palavra é um contrassenso, não existe, mas são indivíduos que aprendem o caminho certo, e fazem tudo para esquecê-lo.
Pensando bem, são incapazes de entender porque o neurônio restante não funciona.
A triste notícia é que o Paçoca não resistiu. Foi o nome que encontrou na clínica.
De qualquer forma, me sinto um humano melhor do que antes.
Como se diz, o dinheiro você recupera, a dignidade nem sempre.




