O latifundiário e candidato ao Senado Bruno Scheid (PL-RO) grunhiu, em vídeo recentemente publicado em sua plataforma digital, em resposta direta à publicação do AND. “Inclusive, tem um jornaleco aí que fez uma publicação minha há uns três dias atrás, me chamando de latifundiário bolsonarista. Vá à merda vocês, pô! Tão achando que vão me intimidar?”, esbravejou Scheid em vídeo publicado nas próprias plataformas digitais. Não, Bruno. A imprensa popular e democrática não está tentando intimidá-lo.
O autoproclamado “05” da Bolsonaro, homem que faz questão de colocar “Bolsonaro” no seu sobrenome, só poderia estar se referindo à publicação ‘LCP porta fuzil em Rondônia’: tiete bolsonarista Bruno Scheid reencena ‘pesadelo’ de ‘camponeses armados com fuzis e pistolas’ para atacar a luta pela terra, que foi ao ar em 25 de junho, pois, trata-se da única matéria que faz menção a si.

Quem é mesmo Bruno Scheid?
A reportagem do AND, publicada em 25 de junho, mostrou como Scheid vem reutilizando uma suposta ação ocorrida em 2018 para atacar a luta pela terra, criminalizar a Liga dos Camponeses Pobres (LCP) e apresentar-se como protetor dos latifundiários de Rondônia.
Diante de uma plateia de proprietários rurais, o então pré-candidato contou que teria encontrado “15 caras encapuzados portando fuzil, pistolas, tudo que vocês possam imaginar”. Depois, declarou que pensa diariamente em como “pisar no pescoço de vagabundo como a LCP fez comigo”. Não há provas de que a LCP esteve envolvida nessa ação.
Em outros vídeos, Scheid classificou a organização camponesa como “facção criminosa”, ao arrepio da lei, e defendeu que os camponeses que lutam pela terra deveriam “puxar cadeia”. Apesar da gravidade das acusações, não apresentou nas gravações qualquer prova de que as torturas que diz ter sofrido tenham sido praticadas pela LCP.

Embora a história, repetida várias vezes, dê a ideia de que Scheid agora é uma “liderança ruralista”, os próprios latifundiários não reconhecem muito bem essa sua “condição”. Em 2022, o então secretário de Agricultura de Rondônia, Evandro Padovani, afirmou que Scheid não representava o setor agropecuário na Região Norte e que, apesar de atuar há 22 anos no estado, o desconhecia.
Aliás, o esquisito hábito de incluir “Bolsonaro” em seu próprio sobrenome já foi interpelado pela própria Procuradoria Regional Eleitoral; em pronunciamento, o órgão sustentou que o artifício poderia induzir o eleitor a acreditar numa relação familiar inexistente, construir artificialmente notoriedade política e configurar tentativa de fraude à legislação eleitoral. O judiciário chegou a proibir o uso e fixar multa diária de R$ 5 mil, mas a decisão foi posteriormente revogada por vícios processuais e limitações do procedimento utilizado.
Do curral ao Palácio do Planalto
A entrada de Scheid na política ocorreu agarrada às botas de Jair Bolsonaro, homem por quem Scheid acumula peculiar admiração. Segundo o próprio pecuarista, o episódio de 2018 chamou a atenção da campanha bolsonarista, que passou a utilizar sua história para atacar movimentos camponeses e defender o armamento dos proprietários rurais.
A partir daí, começou uma ascensão política marcada por acessos privilegiados ao antigo governo militar de Bolsonaro e generais.
Em 2022, Scheid foi apontado como um dos integrantes de um grupo que buscava contribuições de pecuaristas para impulsionar a campanha de reeleição de Bolsonaro, o que ele negou. Registros obtidos pela imprensa por meio da Lei de Acesso à Informação mostraram que ele esteve no Palácio do Planalto em 11 dias diferentes entre setembro de 2021 e fevereiro de 2022, embora oficialmente só houvesse registro de três visitas.
O “05” desconhecido circulou pelo gabinete pessoal da Presidência, pelo Gabinete de Segurança Institucional e por outras dependências do Planalto. Também viajou com a comitiva presidencial entre Brasília e Porto Velho e posou ao lado de Bolsonaro “O Fraco”, Carlos, Eduardo “Bananinha” e Flávio “Rachadinha” Bolsonaro, além do general Augusto Heleno e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto.

Na mesma época, uma reportagem revelou que Scheid possuía duas dívidas tributárias inscritas em dívida ativa da União, que somavam R$ 482.191,46. Questionado sobre o assunto, não respondeu e bloqueou o contato do repórter do Metrópoles. Não há confirmação pública de que essa situação permaneça inalterada atualmente.
A devoção de Scheid ao clã ganhou contornos ainda mais caricatos em 2025. Durante viagens e eventos ao lado de Jair Bolsonaro, o pecuarista passou a circular portando um distintivo com a inscrição “agente de segurança”. Scheid não é policial nem integrante de qualquer força oficial de segurança. Segundo ele, o objeto servia para “facilitar a circulação” e evitar “embaraços” durante os deslocamentos da comitiva. Afinal, aparentemente, o “05 do Bolsonaro” não era reconhecido por seus pares como tão associado a Bolsonaro quanto gostaria de ser.
Scheid também convocou manifestações pela “anistia” dos envolvidos nos ataques de 8 de janeiro, divulgou atos em favor dos “galinhas verdes” condenados e transformou a defesa de Bolsonaro e dos chamados “presos do 8 de janeiro” numa das marcas de seus perfis públicos. Em janeiro de 2026, foi autorizado a visitar o capitão golpista na chamada Papudinha.

LCP rechaça acusações de ‘facção criminosa’
Enquanto Scheid repete acusações sem apresentar provas de que a LCP tenha praticado os crimes que afirma ter sido vítima, a organização camponesa já se pronunciou diversas vezes contra a campanha movida pela extrema direita e por agentes secretos da polícia infiltrados na falsa esquerda de que o movimento seja associado ao Comando Vermelho, “facção criminosa”, “organização terrorista” e “guerrilha”.
Em comunicado divulgado em novembro de 2025, a Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres afirmou categoricamente que a LCP “não é organização criminosa, muito menos terrorista”, mas uma organização “classista e combativa dos camponeses pobres do Brasil”. Segundo o movimento, seu objetivo é desenvolver a Revolução Agrária, entregar as terras dos latifúndios aos camponeses pobres e organizar a autodefesa das massas diante da violência do latifúndio e das forças policiais colocadas a seu serviço.

A posição tampouco surgiu agora. Em nota de maio de 2021, divulgada depois de ataques de Jair Bolsonaro à luta pela terra, a LCP rebateu a acusação de que seria contrária à propriedade privada. A organização afirmou defender os pequenos e médios proprietários e a entrega das grandes propriedades latifundiárias aos camponeses sem terra ou com pouca terra. “Somos contra a criminosa concentração de terras”, declarou.
A LCP também diferencia a pequena e média produção camponesa do latifúndio. Para a organização, os pequenos e médios camponeses são responsáveis por produzir alimentos para a população, enquanto grandes propriedades se sustentam na concentração fundiária, na grilagem, no roubo de terras públicas e na exploração do trabalho rural. Sua luta, conforme afirma, não se dirige contra qualquer produtor, como tentam fazer crer Scheid e seus companheiros de berraria, mas contra o monopólio da terra por um punhado de grandes proprietários.

Em ocasiões nas quais foi responsabilizada por episódios armados concretos, a LCP também negou publicamente acusações, que considerou falsas. Em abril de 2026, por exemplo, a Comissão Nacional negou a autoria de um ataque ocorrido na antiga fazenda NorBrasil e afirmou que a atribuição imediata do caso à organização buscava “criminalizar a sagrada luta dos camponeses pobres pela terra e demonizar a LCP”.
A organização sustenta que a violência no campo parte, historicamente, dos latifundiários, de grupos de pistoleiros e de agentes policiais utilizados como segurança privada. Em sua resposta a Bolsonaro, declarou que os responsáveis pelo verdadeiro terror rural são os grandes proprietários que promovem massacres, despejos, perseguições e assassinatos contra camponeses. Ao mesmo tempo, a LCP declara que “não abre mão da sagrada autodefesa armada de massas” contra a secular violência do latifúndio.
Fonte https://anovademocracia.com.br/




