@viniciocarrilhomartinez
Ester Dias da Silva Batista – Bióloga
Quando temos indivíduos lavando alimentos com detergente retirado de circulação no mercado porque contém bactérias letais, o negacionismo é absoluto. O indivíduo não nega apenas a informação relevante, ele nega qualquer informação que não esteja previamente programada em sua cabeça: a informação de que a empresa produtora de detergentes é líder de segmento, estando no mercado há décadas, é o que conta para a sua tomada de decisão.
Esse indivíduo está retido no passado, feliz com as informações inválidas que já detinha ou, talvez o pior, acredite em mensagens de outros indivíduos, iguais a ele, que produzem e divulgam informações irreais – sugerindo-se, por exemplo, que a bactéria é invenção de cientistas desocupados.
A semelhança com os que se denominavam de “autoimunes, auto vacinados”, frente ao vírus da COVID-19 não é ocasional, é linear. Não há que se esperar por uma resposta diferente se pensarmos em suscetibilidades e inclinações eleitorais. Esse indivíduo, facilmente, votará em quem o WhatsApp determinar.
É óbvio que há uma programação desde os algoritmos para que circulem determinações ideológicas favoráveis ou desfavoráveis, para este e contra aquele[1]. Esse indivíduo, nem é preciso perguntar, tem sua declaração de voto estampada na cédula do negacionismo.
Um dos problemas decorre das redes antissociais, que não apenas apartam os usuários das conexões sociais relevantes, indutoras da Interação Social, ao promover, financeiramente, os “conteúdos” digestivos da sociabilidade, como também inoculam a difusão de mensagens e postagens racistas, misóginas, fascistas.
A outra linha, que deve ser aprofundada em pesquisas e avaliações científicas, nos leva à educação praticada nessa parte inicial do século XXI. Como parte de uma engrenagem muito antiga, a educação se presta a repetir, decorar, fórmulas e construções verbais. Nada ou pouco que inspire reflexão séria, a partir de conteúdos solidificados pela humanidade por séculos, é ventilado na sala de aula.
Docentes são comemorados por seus slogans, numa mistura de animação, criando músicas para que os alunos decorem e “passem de ano ou no vestibular”. Decorar tabuada já era antiquíssimo há cinquenta anos, tanto quanto as musiquinhas que “animam o conhecimento”. Com a atenção de que são metodologias das mais antiquadas possíveis.
O ensino é inserido em uma espécie de espetacularização, aproximando a educação da lógica do consumo rápido de informações. Reduz-se, assim, a necessidade de construção reflexiva do pensamento, favorecendo a passividade, em uma dinâmica que enfraquece a autonomia crítica dos sujeitos e os acostuma à dopamina barata, em um cenário social que privilegia a reprodução de discursos e a manutenção de estruturas de subordinação intelectual.
Frente ao dinamismo tecnológico atual, com celulares que são computadores de mão – usados para tudo, menos para uma conversa efetiva, real –, aplicar essas metodologias (visando-se atender unicamente a forma, sem conteúdo algum) é pedir e esperar pelo fracasso.
Como se diz popularmente, “o mercado faz as escolhas” e, por certo, um indivíduo jovem que usa detergente contaminado com bactérias mortais para lavar alimentos têm poucas chances. Nesse caso do mercado, a seleção natural se daria a partir do mínimo de conhecimento resistente. Em alguns casos graves, como na COVID-19, o sinal é quebrado, fraco para ser percebido.
Portanto, não há exagero no título que demos: Detergente mental.
Com tantos espaços vazios entre as redes de informação e as redes neuronais, que seriam escolhidas pelas sinapses, o Bom Senso, o senso mínimo, não encontram eco. Essas mentes estão higienizadas, imunizadas diante de qualquer perigo de contágio pelo conhecimento relevante, científico, racional.
[1] https://aterraeredonda.com.br/a-fabricacao-algoritmica-da-vontade-politica/?utm_source=newsletter&utm_medium=email&utm_campaign=novos_artigos&utm_term=2026-05-10. Acesso em 10/05/2026.




