segunda-feira, março 16, 2026
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Por que vamos à escola?

Essa crônica traz considerações sobre o que não sabemos, mas que deveríamos dar ouvidos.

Considerando as perspectivas do ambiente escolar pósmoderno, forjado com maneirismos tecnológicos, e ainda que, teoricamente seja fundamentado como um “lugar de conhecimento”, o que fazer?

Para além das formações acadêmicas e teóricas, a escola e os lugares do conhecimento envolvem também os processos de socialização e estruturação social, fazendo emergir as dificuldades em “substituir” as concepções prévias de um sujeito. Essas dificuldades são relacionadas à construção do conhecimento, mas também há relação com a transformação do que está consolidado como conhecimento para este estudante. Isso ocorre uma vez que o processo de aprender implica um fenômeno de transformação das estruturas cognitivas já consolidadas e, muitas vezes, sendo algo que confronta até mesmo as concepções que já fazem sentido para esse estudante. Nesse ponto, a corresponsabilidade entre os estudantes e os professores e professoras é algo essencial.

Porém, após a implementação dos sistemas de plataformização, os docentes tomaram como encargo, para além de suas atuações corriqueiras (ler, estudar, escrever), uma demanda infinita em relação ao preenchimento de dados, informações, avaliações extensas, dentre várias outras questões que tomam ainda mais tempo da vivência docente e de sua própria vida pessoal. O resultado é que, esse esforço que deveria ser estruturado e diluído entre todos os participantes do processo, acaba apresentando um deslocamento, de forma unidirecional para o docente. É nesse contexto que emerge em alto e bom som uma pergunta básica: “Será que nada interessa a vocês?”. Questão que sintetiza essa tensão entre as expectativas de engajamento dos estudantes e a sobrecarga dos professores e professoras.
A estrutura de mercantilização da educação e até a transformação das salas de aulas em “circos”, em que se espera que o docente atue como malabarista, alguém que deve “dar seus pulos” para capturar o interesse e atenção dos estudantes, demonstram assimetria e unilaterização das responsabilidades. O professor acaba, portanto, sustentando sozinho um processo que, naturalmente, deveria ser coletivo, tal como o Mito de Sísifo.

Aliás, reafirmando-se, em anos anteriores já se ouvia uma pergunta reveladora, mas, não só da pessoa que falava e, sim, de uma cultura acadêmica criada na última década.
– não só é curiosa, como revela o que fizemos de errado esses anos todos.

Uma questão básica em qualquer sala de aula, diria:
– “Será que nada interessa, instiga vocês”?

Vejamos a afirmação do coletivo, na voz de uma pessoa:

“Se os docentes falassem o que os estudantes querem ouvir…seria melhor”.

Talvez alguns fiquem em silêncio ao ouvir isso, porque não entenderiam uma colocação divergente. Normalmente, a conclusão é só mental:

– se repetissem o que querem ouvir, cometeríamos dois erros crassos:
– 1. Repetiríamos o óbvio.
– 2. Repetiríamos o senso comum.

Afinal de contas, como é que uma pessoa inteligente vai à escola (“lugar do conhecimento”) para ouvir tudo o que já sabe e ignorar “tudo o que não sabe” ( e que, por dedução, o que não se sabe é muito mais vasto do que “aquilo que supõe saber”).

Há sim um tipo de doutrinação, mas é esse tipo aí: a consolidação do senso comum, das aparências, dos maneirismos, das tais “narrativas”, dos modernismos.

Antes fosse uma doutrinação efetiva, com conteúdo, história, teses, oposições, como se fazia no século XX.

Vinício Carrilho Martinez
Ester Dias da Silva Batista

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