GloboNews omite ligações de Nikolas Ferreira e Ciro Nogueira com Vorcaro e repete estratégia usada na Lava Jato para atacar o atual presidente
A tensão em torno das investigações sobre o Banco Master e seu controlador, o empresário Daniel Vorcaro, ganhou um novo capítulo nesta semana após acusações de parcialidade editorial contra a GloboNews. A emissora divulgou uma apresentação em PowerPoint com o objetivo de direcionar a narrativa do escândalo financeiro ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que minimizou as conexões de figuras da oposição com o banqueiro
A denúncia foi veiculada por um perfil da rede social X, que classificou o material da emissora carioca como uma “manipulação canalha” da GloboNews sobre as relações de Vorcaro com o mundo político. O usuário questionou a seletividade da cobertura ao contrastar as escolhas editoriais da emissora: de um lado, a narrativa de que o presidente Lula teria pedido ao Banco Central uma análise técnica sobre o Master — e que o chefe da instituição, Gabriel Galípolo, teria encaminhado um processo de liquidação da instituição —; do outro, informações que, segundo a publicação, foram deliberadamente silenciadas.
Entre os pontos levantados destacam-se duas conexões envolvendo membros da oposição. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) teria apresentado um projeto de lei que, supostamente, beneficiaria a instituição financeira. Já o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), um dos principais nomes do bolsonarismo, teria utilizado uma aeronave pertencente a Vorcaro durante sua campanha eleitoral.
O caso Banco Master tem movimentado Brasília em função da possibilidade de que Vorcaro firme um acordo de delação premiada. Caso confirmado, o empresário poderá revelar detalhes sobre os vínculos entre a instituição e agentes do poder político, o que elevou o nível de atenção de diferentes setores do espectro partidário ao desenvolvimento da crise bancária.
A polêmica sobre a cobertura da GloboNews evidencia um fenômeno recorrente no jornalismo brasileiro: a disputa pela moldura narrativa de crises financeiras com implicações políticas. Quando os fatos envolvem múltiplos atores de campos opostos, a escolha de quem aparece no centro da história — e quem fica nas margens — é, por si só, um ato editorial carregado de consequências. Nesse contexto, a seletividade no uso de dados e conexões passa a ser tão relevante quanto os próprios fatos apurados.
PowerPoint como arma política, uma estratégia que se repete
O recurso ao PowerPoint adotado pela Globo no caso Banco Master não é novidade no cenário político brasileiro — e tampouco parece casual. A mesma ferramenta foi utilizada como peça central de uma das ofensivas mais emblemáticas da história jurídica recente do país: a acusação formulada pela Operação Lava Jato contra o então ex-presidente Lula, em 2016.
Naquela ocasião, foi o Ministério Público Federal do Paraná, sob o comando do procurador Deltan Dallagnol — que atuava como coordenador do grupo de procuradores à frente das investigações — quem lançou mão da apresentação de slides para imputar ao petista o recebimento de um apartamento da construtora OAS como suposto pagamento de propina. A acusação ganhou enorme repercussão midiática, mas carecia de sustentação probatória sólida — fato que o próprio MPF-PR admitiu publicamente.
Foi o procurador Henrique Pozzobon quem verbalizou, sem rodeios, a fragilidade do material reunido contra Lula: “não teremos aqui provas cabais”, declarou, reconhecendo abertamente a ausência de evidências conclusivas para embasar as acusações que haviam sido alardeadas. A confissão, no entanto, não impediu que as consequências políticas e jurídicas recaíssem sobre o líder petista.
O desfecho do processo só viria anos depois. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal declarou a suspeição do então juiz Sérgio Moro, responsável pelas condenações no âmbito da Lava Jato, o que resultou na devolução dos direitos políticos de Lula — reconhecendo, na prática, os vícios que contaminaram aquele processo desde a origem.
Delação, fraude bilionária e escândalo de bens ocultos
A transferência de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, da Penitenciária Federal de Brasília para a Superintendência da Polícia Federal sinaliza que o empresário está em vias de fechar um acordo de colaboração premiada com as autoridades. O movimento representa uma virada significativa em um caso que a própria PF estima ter movimentado entre R$ 12 bilhões e R$ 17 bilhões em supostas fraudes financeiras.
No âmbito da investigação, os agentes federais passaram a concentrar esforços na análise minuciosa de comunicações e transferências bancárias associadas a Vorcaro e ao seu cunhado, Fabiano Zettel. O foco recai sobre possíveis repasses a figuras do mundo político e sobre irregularidades de natureza financeira que ainda estão sendo mapeadas pelos investigadores.
O histórico recente do empresário é marcado por uma série de episódios polêmicos. Um dos mais impactantes envolve a transferência de um patrimônio superior a US$ 100 milhões — montante que supera R$ 520 milhões na conversão atual — para Martha Graeff, com quem Vorcaro chegou a ser noivo. A movimentação veio à tona a partir de mensagens trocadas entre os dois, cujo conteúdo foi posteriormente encaminhado à CPI do INSS.
O mesmo material trouxe à luz outras revelações graves: registros de ameaças dirigidas tanto a jornalistas quanto a uma funcionária doméstica, além de evidências de que mais de R$ 2,2 bilhões teriam sido ocultados em uma conta bancária aberta em nome do pai do empresário. O peso dessas descobertas foi suficiente para que o Judiciário determinasse o retorno de Vorcaro ao sistema prisional.
Do Brasil 247




